quarta-feira, 7 de maio de 2008

Partes de livros - Histórias que você não ouve por aí. Freud, seu dilema e o estudo do trauma.







Do livro TRAUMA AND RECOVERY de Judith Herman, M.D.

"... By the mid 1890s Janet in France and Freud, with his collaborator Joseph Breur, Vienna had arrived independently at strikingly similar formulations: hysteria was a condition caused by psychological trauma. Unbearable emotional reactions to traumatic events produced an altered state of consciousness, which in turn induced the hysterical symptoms. Janet called this alteration in consciouness "dissociation." Breur and Freud called it "double consciouness".
Both Janet and Freud recognized the essential similarity of altered states of consciouness induced by psychological trauma and those induced by hypnosis. Janet believed that the capacity for dissociation or hypnotic trance was a sign of psychological weakness and suggestibility. Breur and Freud argued, on the contrary, that hysteria, whith its associated alterations of consciousness, could be found among "people of the clearest intellect, strongest will, greatest character, and highest critical power."
Both Janet and Freud recognized that the somatic symptoms of hysteria represented disguised representations of intensely distressing events which had been banished from memory. Janet described his hysterical patients as governed by "subconscious fixed ideas," the memories of traumatic events. Breuer and Freud, in a immortal summation, wrote that "hysterics suffer mainly from reminiscensces."
By the mid 1890s these investigators had also discovered that hysterical symptoms could be alleviated whem the traumatic memories, as well as the intense feelings that accompanied them, were recovered and put into words. This method of treatment became the basis of modern psychotherapy. Janet called the techcnique "psychological analysis," Breur and Freud called it "abrection" or "catharsis," and Freud later called it "psycho-analysis."..."


"... This empathic identification with his patients' reactions is characteristic of Freud's early writings on hysteria. His case histories reveal a man possessed of such passionate curiosity that he was willing to overcome his own defensiveness, and willing to listen. What he heard was appalling. Repeatedly his patients told him of sexual assault, abuse, and incest. Following back the thread of memory, Freud and his patients uncovered major traumatic of childhood concealed beneath the more recent, often relatively trivial experiences that had actually triggered the onset of hysterical symptoms. By 1896 Freud believed he had found the source. In a report on eighteen case studies, entitled The Aetiology of Hysteria, he made a dramatic claim: "I there for put forward the thesis that at the bottom of every case of hysteria there are one or more occurrences of premature sexual experience, occurrences which belong to the earliest years of childhood but which can be reproduced through the work of psycho-analysis in spite of the intervening decades. I believe that this is an important finding, the discovery of a caputt Nili in neuropathology."

A century later, this paper still rivals contemporay clinical descriptions of the effects of childhood sexual abuse. It is a brilliant, compassionate, eloquently argued, closely reasoned document. Its triumphant title and exultant tone suggest that Freud viewed his contribution as the crowning achievement in the field.

Instead the publication of The Aeotiogy of Hysteria marked the end of this line of inquiry. Within a year, Freud had privately repudiated the traumatic theory of the origins of hysteria. His correspondence makes clear that he was increasingly troubled by the radical social implications of his hypotesis. Hysteria was so common among women that if his patients' stories were true, and if his theory were correct, he would be forced to conclude that what he called "perverted acts against children" were endemic, not only among the proletariat of Paris, where he had first studied hysteria, but also among the respectable bourgeois families fo Vienna, where he had established his practice. This idea was simply unacceptable. It was beyond credibility.

Face with this dilemma, Freud stopped listening to his female patients. The turning point is documented in the famous case of Dora. ..."


Agora do livro: TRAUMA E EMDR, organizado por Rubén Lescano. Você verá partes de um capítulo que é um resumo de parte do livro acima citado. Capítulo de Dr. Paulo Solvey e Dra. Raquel C. Ferrazzano de Solvey.

"... O estudo do trauma psicológico tem uma curiosa história de "amnésia episódica", Perío
dos de investigação ativa se alternam com períodos de esquecimento. Repetidas vezes nos séculos XIX e XX, seguiram-se linhas similares de investigação, que foram bruscamente abandonadas para voltar a serem descobertas muito depois.

Escritos clássicos de 50 ou 100 anos atrás, com frequência parecem obras comtemporâneas. Embora o tema tenha uma tradição rica e abundante, tem sido periodicamente esquecido e deve ser periodicamente redescoberto.

Essa amnésia intermitente não é resultado de simples mudanças de moda, que às vezes afetam qualquer procura intelectual. O estudo do trauma psicológico não recai por falta de interesse. Pelo contrário, o tema provoca tanta controversa que periodicamente é abandonado. Leva-nos a terreno do impensável e põem em jogo sistemas de crenças fundamentais. ..."

"... Quando a vítima é depreciada, como no caso de mulheres e crianças, descobrirá que os eventos mais traumáticos de sua vida ocorrem ao largo de uma realidade validada socialmente. Sua experiência não deve ao indescritível e inexistente.

Na história desse campo, discutia-se se os pacientes com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) eram reais ou fingiam, se suas histórias eram verdadeiras ou falsas e, se falsas, se eram imaginadas ou inventadas.

Para manter a realidade do trauma na consciência, se requer um contexto social que o permita. Para a vítima individual isso será dado por sua família e amigos. Para a sociedade o contexto é criado pela realidade política do momento.

Por exemplo, o estudo do trauma de guerra só se torna legítimo e só pode existir em um contexto que questione as guerras.

Por três vezes durante os séculos XIX e XX estudou-se o tema. A cada ocasião a investigação cavalgava em um movimento político. O primeiro a ser investigado - e portanto descoberto - foi a histeria.

Seu estudo surgiu em meio do movimento republicano anti-clerical da França no final do século XIX em oposição ao movimento monárquico.

O segundo foi shell shock (choque de artilharia), também chamado neurose de combate ou neurose de guerra. Seu estudo foi feito na Inglaterra e nos Estados Unidos depois da Primeira Guerra Mundial e alcançou seu ponto culminante com a guerra do Vietnã. O contexto político era o colapso do culto à guerra e o crescimento de movimentos antibélicos e pacifistas.

O terceiro e mais recente estudo sobre trauma que emerge ao conhecimento público é o conceito - e a aceitação - da existência da violência sexual e doméstica exercida especialmente sobre mulheres e crianças.

Nossa compreensão contemporânea do trauma psíquico se baseia na síntese dessas três linhas de investigação. ..."

"... Tanto Pierre Janet quanto Sigmund Freud compreenderam a importância da história da paciente. Cada um deles, de forma independente, alcança o mesmo descobrimento: era necessário falar com elas e escutá-las.

Durante uma breve década estes homens da ciência escutaram essas mulheres com uma devoção inexistente antes ou depois. Encontros diários, às vezes de horas, não eram raros de acontecer.

Em 1890, ambos chegam à idêntica conclusão:

a) A histeria era um quadro causado por um trauma psicológico ( o mais frequente era o de haver sido vítima de abuso sexual na infância).

b) Este provoca um estado alterado de consciência que por sua vez induzia os seus sintomas.

c) Janet chamou esta alteração "dissociação".

d) Breur e Freud o chamaram "double conscience".

Janet afirmou que suas pacientes histéricas eram governadas pelas "idéias fixas subconscientes, as lembranças dos eventos traumáticos". Breur e Freud escreveram (1893) que "as histéricas sofrem de reminiscências" (do trauma). Utilizaram como método de tratamento a atual psicoterapia pela fala, chamada por P. Janet "análise psicológica", por Freud "psicanálise" e por Ana O. "a cura pela fala".
Em 1896 Freud, na Etiologia da histeria, descreve como sua causa está no trauma sexual infantil: ter sido vítima de abusos.
Sua primeira teoria de trauma pode estar representada, entre outras, na seguinte nota
" Proponho a teoria que por atrás de cada caso de histeria, há um ou mais episódios de experiências sexuais prematuras, episódios acorridos na mais tenra infância, mas que podem ser recuperados pela psicanálise, apesar das décadas transcorridas. Acredito ser um descobrimento por demais importante o do Caput Nili na neuropatologia".

Da mesma forma Pierre Janet, também em 1896, descreve como explicação da etiologia da histeria a mesma origem traumática, fazendo chegar por sua conta à idêntica conclusão.


O que Freud ouvia de seus pacientes eram impactantes histórias de abuso sexual, de incesto, de violações.


Um século depois, as descrições clínicas de Freud rivalizam com os estudos contemporâneos que descrevem o mesmo. Eram brilhantes, compassivos, eloquentes e com rigor científico. Lamentavelmente isso não foi o começo como parecia, mas o final.


Esses casos não eram mais escutados em Paris, dos pacientes de hospitais públicos, mas de Viena em seu consultório particular. Já não atendia mendigas e prostitutas, e sim as filhas de seus colegas e vizinhos, amigos e parentes, o melhor da sociedade austríaca. Voltava a encontrar uma e outra vez essas histórias sinistras de abusos e incestos.


Passado um ano, Freud já havia repudiado seu descobrimento sobre a etiologia traumática de um quadro psiquiátrico como a histeria. Isso desabrocha em sua cartas para Fliess, recentemente publicadas, (que vc também verá na sequência do post) ainda que só retrata publicamente de sua teoria de sedução, sete anos depois. O repúdio da teoria do trauma pode ser bem exemplificado na seguinte nota, além das que seguem abaixo: "Vi-me, por fim, obrigado a reconhecer que estas cenas de sedução nunca haviam ocorrido, eram tão somente fantasias que minha pacientes inventaram".


Há quem considere o recuo de Freud um ato de covardia; no entanto cremos provável que seu descobrimento não poderia encontrar eco, ao faltar-lhe substrato político e social=>(Veja você mesmo em MASSON, J. M. (1984) The Assault on Truth: Freud's Supression of The Seduction Theory).


Freud não dispunha, na Viena daquele momento, do ambiente sócio-político adequado ao questionamento da moral da época, como o havia encontrado em Paris, consequência dos enfrentamentos entre a monarquia e o moviento republicano.


O fato é que a partir dali elaborou uma teoria do desenvolvimento humano, na qual inferioridade e hábito de mentir das mulheres eram pontos centrais da doutrina. Num clima político patriarcal e antifeminista - com o qual ele se identificava - essa teoria prosperou e cresceu, chegando a afirmar que o sentido da justiça era mais frouxo nas mulheres que nos homens ( carta de Freud para Fliess do livro de MASSON, J. M. citado acima).


O que poderia fazer então? Aceitar que esses atos perversos contra crianças eram endêmicos na sociedade? Isso era para ele e para a Europa da época inaceitável. Construiu assim a tese de que tosas eram fantasias que haviam sido tomadas como verdades. Freud não pôde, ou não soube, ou não quis enfrentar o sinistro que estava descobrindo nos relatos de seus pacientes porque formava parte do mesmo sistema. Isso marcou o fim de uma era.


Pierre Janet não foi ouvido apesar de sua postura firme. Durante um século essas pacientes foram - mais uma vez - silenciadas. Isso atrasou em cem anos a psiquiatria e o estudo e consequências do trauma psicológico. ..."

Do livro: ATENTADO À VERDADE a supressão da teoria da sedução por Freud



"... INTRODUÇÃO

Em 1970, comecei a me interessar pelas origens da psicanálise e pelo relacionamento de Freud com Wilhelm Fliess, o otorrinolaringologista que era o seu amigo mais íntimo durante os anos em que Freud formulava suas novas teorias.

Correspondia-me há algum tempo com Anna Freud sobre a possibilidade de preparar uma edição completa das cartas de Freud a Fliess, uma versão resumida do que havia sido publicado em 1950 em alemão e, em 1954, em inglês com o título The Origins of Psychoanalysis (Nova York, Basic Books). Essa edição havia sido preparada por Anna Freud, Ernst Kris e Marie Bonaparte. Em 1980 , encontrei-me com o Dr. K. R. Eissler, diretor dos Sigmund Freud Archives, e conselheiro de confiança e amigo de Anna Freud, e com Anna Freud em Londres, e a Sra. Freud concordou com uma nova edição das cartas de Freud a Fliess. Em consequência, foi-me dado acesso a essa correspondência lacrada (os originais estão na Biblioteca do Congresso), que constitui nossa mais importante fonte de informações a respeito dos primórdios da psicanálise.

Além de incluir todas as cartas ou passagens que haviam sido previamente omitidas (que chegavam a mais de metade do texto), julguei necessário acrescentar inúmeros comentários. Precisaria assim ter acesso a outros elementos relevantes. Anna Freud ofereceu sua total cooperação, e pôs à minha disposição Maresfield Gardens, onde Freud passou o último ano de sua vida.

A magnífica biblioteca pessoal de Freud estava lá, e muitos dos volumes, especialmente dos anos iniciais, estavam antotados por ele. Na escrivaninha de Freud, descobri um caderno de notas mantido por Marie Bonaparte depois que ela comprou as cartas de Freud a Fliess em 1936, no qual ela comenta as reações de Freud a essas cartas, que ele havia escrito anos antes. Encontrei-me também uma série de cartas que diziam respeito a Sándor Ferenczi, que seria, anos mais tarde, o mais íntimo amigo analítico e colega de Freud, e ao último ensaio que Ferenczi leu no 12º Congresso Psicanalítico Internacional em Wiesbaden. Esse ensaio tratava da sedução sexual de crianças, um tema que absorvera Freud durante os anos da sua amizade com Fliess.

Num grande armário negro do lado de fora do quarto de dormir de Anna Freud, encontrei muitas cartas originais de e para Freud, escritas durante esse mesmo período, cartas até então desconhecidas: uma carta de Fliess para Freud, cartas de Charcot para Freud, cartas de Freud para Josef Breuer, para sua cunhada Minna Bernays, para sua mulher Martha, e para antigos pacientes.

Pouco tempo depois, o Dr. Eissler perguntou-me se eu estava disposto a sucedê-lo como diretor dos Freud Archives. Concordei e fui nomeado Diretor de Projetos interino. Os Archives haviam comprado a casa de Freud em Maresfield Gardens, e eu devia converter a casa em museu e centro de pesquisa. Anna Freud deu-me acesso aos documentos reservados que ela já havia doado à Biblioteca, o que perfazia quase 150.000 documentos (na maioria vindos dos Archives). A Biblioteca concordou em fornecer cópias desses documentos ao museu projetado. Tornei-me também um dos quatro diretores da Sigmund Freud Copyrights, o que me permitiu negociar com a Harvard University Press a publicação das cartas de Freud, em edições completas, anotadas, eruditas.

À medida que ia lendo a correspondência e preparando as anotações para o primeiro volume da série, as cartas de Freud a Fliess, comecei a notar o que parecia ser uma constante nas omissões feitas por Anna Freud na edição resumida original. Nas cartas escritas depois de setembro de 1897 (quando se julga que Freud abandonou sua teoria da "sedução"), todos os históricos de casos tratando de sedução sexual de crianças foram expungidos. Além disso, todas as menções a Emma Eckstein, uma das primeiras pacientes de Freud e Fliess, que parecia de algum modo ligada à teoria da sedução, foram omitidas. Impressionou-me particularmente um trecho de uma carta escrita em dezembro de 1897, que trazia à luz dois fatos até então desconhecidos. Emma Eckstein estava, ela própria, recebendo pacientes em análise (presumivelmente sob supervisão de Freud); e Freud inclinava-se, de novo, a dar crédito à teoria da sedução.

Perguntei a Anna Freud por que ela havia omitido esse trecho da carta de dezembro de 1897. Disse-me que não sabia mais por quê. Quando lhe mostrei uma carta não publicada de Freud a Emma Eckstein, disse que compreendia bem meu interesse pelo assunto, pois Emma Eckstein fora de fato uma parte importante da história do início da psicanálise; não obstante, porém, a carta não devia ser publicada. Em conversas subsequentes, a Srta. Freud deixou implícito que, já que seu pai acabara por abandonar a teoria da sedução, ela achava que apenas confundiria os leitores expô-los às suas dúvidas e hesitações iniciais. Eu, por outro lado, achava que essas passagens não apenas eram de grande importância histórica, como podiam muito bem representar a verdade. Parecia-me que ninguém tinha o direito de, alterando os registros, decidir pelos outros o que era verdade e o que era erro. Além disso, qualquer que fosse a decisão definitiva de Freud, era evidente que essa teoria o perseguiria a vida inteira.

Mostrei à Srta. Freud a correspondência de 1932 que encontrara na escrivaninha de Freud a respeito do último ensaio do seu amigo íntimo Sándor Ferenczi, que tratava exatamente desse tema. Claramente, pensei, era a preocupação persistente de seu pai com a teoria da sedução que explicava seu afastamento de Ferenczi, de outro modo misterioso. A Srta. Freud, que gostava muito de Ferenczi, achou penoso ler essas cartas e pediu-me que não as publicasse. Mas não era, insisti, uma teoria que Freud tivesse descartado facilmente, como um erro inicial insignificante, como nos queriam fazer crer.

Anna Freud instou-me a voltar meus interesses para outro lado. Em conversas com outros analistas próximos da família de Freud, foi-me dado a entender que eu topara com algo que seria melhor deixar de lado. Talvez, se a teoria da sedução houvesse realmente sido apenas um desvio ao longo do caminho da verdade, como tantos analistas acreditam, ter-me-ia sido possível dirigir minha atenção a outros assuntos. Mas, em minha opinião, a hipótese da sedução era a própria pedra fundamental da psicanálise. Em 1895 e 1896 Freud, ao ouvir suas pacientes, ficara sabendo que algo terrível e violento lhes marcara o passado. Os psiquiatras que ouviram essas histórias antes de Freud acusaram suas pacientes de serem mentirosas histéricas e descartaram suas lembranças como fantasia. Freud foi o primeiro psiquiatra a acreditar que suas pacientes estavam dizendo a verdade. Essas mulheres doentes, não porque viessem de famílias com "tendências", mas porque algo de terrível e secreto havia sido feito a elas quando eram crianças.

Freud anunciou sua descoberta num ensaio que leu em abril de 1896 na Sociedade de Psiquiatria e Neurologia em Viena, sua primeira grande alocução pública aos seus pares. O ensaio (o mais brilhante de Freud na minha opinião) foi recebido com um silêncio total. Depois, Freud foi instado a jamais publicá-lo, para que sua reputação não viesse a ser irremediavelmente prejudicada. Em torno dele aprofundou-se o silêncio e também a solidão. Mas ele desafiou seus colegas e publicou A etiologia da histeria, um ato de grande coragem. Ao fim, porém, por razões que tentarei elucidar nesse livro, Freud chegou à conclusão de que errara ao acreditar em suas pacientes. Isso, sustentou ele mais tarde, marcou o começo da psicanálise como ciência, terapia e profissão.

Jamais me parecera certo, mesmo como estudante, pretender que Freud não acreditasse em suas pacientes. Não concordava que as cenas de sedução representadas como lembranças fossem apenas fantasias, ou lembranças de fantasias. Mas não pensara em duvidar do relato histórico de Freud (frequentemente repetido em seus escritos) so.bre os seus motivos para mudar de opinião. Contudo, quando li as cartas a Fliess sem as omissões (as quais Freud, aliás, teria sem dúvida aprovado), elas contavam uma história muito diferente, dolorosa. Ademais, não importando para onde me virasse, até nos escritos mais tardios de Freud encrontrava sempre casos de sedução ou abuso de crianças.

Muriel Gardner, psicanalista e amiga de Anna Freud e de Kurt Eissler, apoiou meu trabalho, não só financeiramente, mas também dando-me todo o estímulo possível. Pediu-me para examinar os documentos inéditos que ela tinha em casa a respeito de Homem dos Lobos, um dos mais famosos pacientes posteriores de Freud, que fora financeiramente sustentado pela Dra. Gardiner e pelo Dr. Eissler. Lá, encontrei algumas notas de Ruth Mack Brunswick para um ensaio que jamais publicara. A pedido de Freud, havia reanalisado o Homem dos Lobos e espantara-se ao saber que, quando criança, ele fora seduzido analmente por um menbro da sua família _ e que Freud não sabia disso. Nem ela nunca lhe disse. Por que? Freud não sabia porque não quera saber? E Ruth Mack Brunswick não lhe contara porque percebia isso?

Em minha busca de novos dados, procurei saber mais sobre a viagem de Freud a Paris em 1885-1886. Visitei a biblioteca de seu antigo professor, Charcot, na Salpêtrière, e isso me levou ao necrotério de Paris, pois sabia que Freud assistira a autópsias realizadas ali por um amigo e colaborador de Chacot, Paul Browardel. Insinuações feitas por Freud davam a entender que ele vira no necrotério algo "de que a ciência preferia não fazer caso". No necrotério, fiquei sabendo que existia em francês toda uma literatura de medicina legal sobre abusos de crianças (especialmente estupro), e Freud dispunha desses documentos na sua biblioteca pessoal, embora não fizesse referência a eles nos seus escritos. Além disso, descobri que algumas da autópsias a que Freud assitira podiam ter sido autópsias feitas em crianças que haviam sido estupradas e assassinadas.

Vi que estava numa situação estranha. Quando me tornara psicanalista, acreditava que Freud havia intrepidamente buscado a verdade, que queria ajudar seus pacientes a enfrentarem suas histórias pessoais, e o que de mal lhes havia sido feito, não importa quão desagradável. Minha formação analítica ensinara-me cedo que esses ideais não eram partilhados por todos os colegas. Não pensava, porém, que estivessem totalmente alijados da ciência; certamente ainda havia gente que inflexivelmente buscava a verdade. Por isso, argumentava comigo mesmo, eu fora encorajado em minha pesquisa; nenhuma restrição lhe havia sido imposta.

Achava que as informações que estava pondo a nu eram vitais para compreender-se como a psicanálise se desenvolvido e comuniquei os resultados da minha pesquisa aos responsáveis por ela em primeiro lugar, Anna Freud, e Dr. Eissler e a Dra. Gardiner. Pensei que, embora eles pudessem não concordar com as minhas interpretações, não depreciariam o alcance das minhas descobertas.

Minha decepção com a psicanálise tal como eu a conhecia não era novidade, sendo inclusive partilhada por muitos dos meus colegas. A esse respeito, um encontro com Anna Freud pareceu-me importante e merece aqui um relato. Geralmente, minha relações com a Srta. Freud eram formais, limitando-se a discussões sobre pontos de pesquisa. Uma tarde, porém, começamos os dois a conversar de modo mais pessoal. Disse-lhe como estava desiludido com a minha formação em Toronto, que as coisas não haviam melhorado muito em São Francisco e duvidava que fosse diferente em qualquer outro lugar. Perguntei-lhe se, caso seu pai fosse vivo hoje, ele quereria participar do movimento psicanalítico, ou mesmo ser analista. "Não", respondeu ela, "ele não quereria." Anna Freud, então, entendia minha crítica à psicanálise tal como ela é praticada hoje, e parecia apoiar-me nessa crítica. Todavia, quando minha pesquisa levou-me mais para trás, para o próprio Freud, esse apoio cessou.

De fato, o que eu estava descobrindo apontava para trás, para o período inicial de Freud, 1897-1903, como o momento em que começaram a se manifestar mudanças fundamentais que, na minha opinião, haveriam de solapar a psicanálise. Com a maior relutância, cheguei gradualmente a ver o abandono da hipótese da sedução por Freud como uma falta de coragem. Se estava enganado no meu ponto de vista, certamente encontraria uma refutação inteligente e críticas sérias à minha interpretação dos documentos. Onde que que ela estivesse, a verdade tinha de ser encarada, e os documentos que eu encontrara tinham de ser trazidos à luz.

A convite de Anna Freud, apresentei um relato preliminar de minhas descobertas num encontro de psicanalistas na Hampstead Clinic em Londres em 1981. Os participantes haviam sido convidados por Anna Freud para uma conferência sobre Insight em Psicanálise, e muitos dos principais analistas do mundo inteiro estavam presentes. A reação negativa ao meu ensaio alertou-me para as implicações políticas da minha pesquisa, para a possibilidade de ela vir a ter um efeito adverso sobre a profissão. Mas afastei do pensamento essas considerações, como não merecedoras da atenção de um pesquisador sério."

Continua ...

Comentários

Anônimo disse...
ei, parou em maio... já estamos em agosto... sinto falta do seu movimento...
Agosto 02, 2008

Um comentário:

  1. ei, parou em maio... já estamos em agosto... sinto falta do seu movimento...

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